A curadoria de 2026 busca acentuar certos traços formais produzidos por diferentes dispositivos na Escola de Fotógrafos Cegos, na medida em que os autores ou cada dupla de autor com o seu “assistente-professor-descritor”, produz algo que é mediado pela linguagem em tensionamento com os corpos: o jeito de segurar a câmera condiciona um estilo, as relações geométricas dos elementos de um território, a forma de se relacionar que condiciona a proximidade do corpo, do toque e do clic, a crosta de acúmulos de resíduos ao receber a navalha (poderia ser outro corte e este é acidental): uma borda entre o sim e o não, o estar e o não estar, presença que sinaliza ausência e a ausência que testemunha presença. A imagem nunca é do jeito que os olhos viram. Fotografar não é a arte da coisa. Me deixem não existir para vocês! Da minha ausência eu aceno. Me resta a voz. A pessoa cega está próxima desta outra imagem, a que se vê na linguagem, que nasce dela e em seus acidentes. O verbo “ver” é de linguagem e por ter o verbo “ver” consigo, a pessoa cega vê e o ver é seu. Esta operação nos permite ir muito além, nos deixa desembaraçar os cadarços do mundo e entender que a dimensão da sola - onde pisamos, onde caminhamos e de onde partimos -, é a nossa língua. Fotografar é um ato de linguagem. Podemos ver um dente de telhado no céu azul. Um dente de telhado com o fundo azul do céu. Um dente de um telhado com um fundo azul. Um dente de telhado, uma borda, um telhado quebrado. Eis aí, os fotógrafos cegos, sobre o seu próprio ato e o que restou: as imagens.
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Rejane Arruda
"Quando Fecho os Olhos Vejo Mais Perto"
1a Itinerância
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O que vemos quando fechamos os olhos? Quanto tempo conseguimos ficar de olhos fechados em meio aos sons, cheiros e ao vento que esbarra em nossa pele? Nesseintervalo, quais imagens chegam até nós? Essas questões nos convidam a entrar na exposição coletiva Quando fechamos os olhos vemos mais perto, realizada por doze fotógrafos cegos participantes da Escola de Fotógrafos Cegos (E.F.C.), entre os meses de agosto de 2022 e abril de 2023. Após oito meses de atividades, os alunos da E.F.C., juntamente com professores, artistas e fotógrafos, construíram um arcabouço de imagens que nos fazem imergir em personagens encantados, momentos íntimos da casa, cenas cotidianas, objetos escondidos nas esquinas dos lugares esquecidos. Divididos em oito módulos que estão espalhados pelo parque, os alunos experenciaram novos meios de manipular a máquina fotográfica, de explorar os sentidos do corpo, de fazer essa “jornada de enxergar sem os olhos abertos”, como nos declara Geovana, uma das alunas do projeto. São imagens que revelam o mundo físico disso que já existe na imaginação e no universo particular de cada um. Como nos diz Kéllezy, outra integrante do grupo, “trabalhar com imagens se tornou um processo de exploração: do meu corpo, com os meus sentidos, com os meus sentimentos”. Por meio dessas investigações, as fotografias aqui expostas nos fazem navegar pelo espaço infinito do não-ver. Em outras palavras, elas nos questionam: afinal, o que seria ver? Neste mundo saturado de imagens no qual muito se vê, porém pouco se olha, os fotógrafos cegos, para além de solicitarem o mundo visual ao clicarem no disparador da câmera, nos convidam a olhar mais de perto. Olhar mais de perto para as imagens que não pertencem à visão, mas ao mundo invisível do olhar, dos sonhos, das imagens que emergem e desvanecem repentinamente da nossa memória. Imagens que nos habitam desde a infância, que nos arrepiam a pele, que nos transportam no tempo. Imagens que só vemos mais perto quando fechamos os olhos.
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Bárbara Bragato