Descobrir como cada um imprime identidade mesmo que sem querer, na relação com o mundo, a curadoria, a prática da EFC e os fatores sociais que os ultrapassam, é delicioso. Estamos e ao mesmo tempo, não estamos em cada imagem. Que estamos como suporte, parte do dispositivo, mas algo nos ultrapassa, isso eles, os fotógrafos que são cegos, nos mostram claramente. Mas é algo que está nos videntes também. Acreditando que humildemente somos parte de um dispositivo que nos toma nos tensionamentos e acaba por desabar para a obra surgir. E, a partir disto, e mesmo assim, estamos lá em vestígio. Em detrimento do apagamento da intencionalidade e em homenagem ao que há de desejo em nós.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 fotógrafos cegos.
Revelando sua relação inequívoca de amor com o ato de fotografar, Jarlison Gardiman nos oferece os espaços urbanos onde habita, com seus personagens como Avô João e os sobrinhos Ruan, Luan e Natan.
Enquanto as meninas de Manoel Peçanha, na intimidade com a mãe e o jardim, são flagradas em um jogo de captura para constituir a coleção de instantes do pai fotógrafo cego que, refletido em suas pupilas, afetuosamente acompanha suas jornadas diárias.
Enquanto a solidão do cão errante no asfalto do bairro de Sayonara Reis, é sinal de liberdade e contraponto da delicadeza do enlaçamento com as mulheres da família, em intencional ode à alegria de estar viva: “Tem alegria, aqui eu habito” (Sayonara Reis).
Com a boneca que ela mesma põe escondida atrás da planta, espiando; com o gato que descobriu olhando-a lá de cima da escada; com o jovem de quem chegou tão perto e ao tocar-lhe o rosto isolou um olho; com o branco dos próprios olhos cegos que escancara, Geo Santos testemunha um olhar real sobre o mundo do qual nos oferece imagens.
Já as lacunas forjadas por Kellezy Barbosa alargam tempo e espaço, revelando um olhar comprido sobre casas tão distantes (e como ela as torna pequenas!), fechadas as janelas! E sobre uma só, pai e mãe tão perto que a fotógrafa captura-lhes os afetos! E sobre os longínquos anos 70, enquanto a amiga traz para a espessura do toque a imagem projetada que aderiu à parede, Kel é flagrada pintando o olho em autorretrato.
E enquanto Maycon Machado suspende o tempo da vila, da cidade e do barco, até mesmo do pescador que de rosto escondido espera, a fabulação tece os fios da expectativa de que alguém abra a janela, que a feira volte, que o homem continue. Diante do farol, o fotógrafo e também os peixes o esperam. O limiar do telhado encontra o céu. E a borda do papel interrompe o fio infinito das palavras onde não cabem o amor eterno.
“Ali um grande amor, amor sem limite, amor sem fim, amor jamais esquecido, amor verdadeiro e sincero. Te amo do fundo do meu coração”: as costas da foto de Elias Barcelos. O tear de partes, parece compor a subjetividade de um autor que se anuncia como vulto atrás da porta, frase-enigma. Enquanto esperamos compreendê-la, a obra nos toca e nos convoca a entrar por uma de suas portas.
Já as histórias de António Fadini estão na sola dos pés, nos cordéis, nos álbuns e na máquina fotográfica, recente instrumento que lhe permite habitar o corpo dos pés à cabeça. Enquanto o envelopa com narrativas, encontra seu lugar de morada. E como ele mesmo diz, habita ali, nos objetos, na escrita e nas imagens.
E como também diz Jarlison Gardimam, torna-se um habitante de si. É como Jonatas Sobral, que habita o céu, o sonho e o caminho, pois homem disposto a caminhar. “Deus, o que estou fazendo? Eu não vou parar, eu vou até o fim”, diz o homem feito de jornadas. “Minha mãe me fez ver que eu precisava habitar um mundo novo”. “A vida é uma prova, a gente só não sabe com quantas questões” (Jonatas Sobral).
Um fotógrafo não se faz de uma hora para outra. É preciso reconhecer-se, pensar-se. É preciso autorizar-se. Assim como em outras modalidades de arte, o sujeito se nomeia. Os fotógrafos cegos da Escola de Fotógrafos Cegos estão em formação e com “Aqui Eu Habitei” dão mais um passo em direção à construção de um trabalho autoral.
O que podemos extrair, deste habitar nas imagens que cada um revela, é a importância do ato de fotografar também para a pessoa cega. A aderência a esta coisa lisa que se captura ao enxergar, mas que pode ser experienciada no ato do qual fazem parte, com entusiasmo, assim como se habita a linguagem e o mundo que esta forja. Enquanto o teor onírico e os enquadramentos ímpares nos remetem a um ponto de convocação da fantasia e do limite do dizer.
Rejane Arruda.